terça-feira, 17 de julho de 2012

chuva de julho

Chuva em julho em Goiânia é algo tão improvável que, quando acontece, arranca indagações de espanto por toda parte: "Chuva nessa época?". São várias as manifestações a favor ou contra as gotinhas que caem inesperadamente e o fenômeno das redes sociais permite que eu tenha acesso a várias delas de uma só vez.

De minha parte, não gosto das tempestades, das chuvas torrenciais que vêm com muitos raios, ventanias e fazem um enorme estrago nas nossas cidades mal estruturadas. Mas adoro essa chuvinha fininha que faz a temperatura cair subitamente e traz esse cheiro tão familiar.

As lembranças afluem em um redemoinho de cheiros, gostos e sensações. Não sei o que aconteceu de tão bom na minha vida que me faz sentir essa felicidadezinha quase pueril ao ouvir os pingos da chuva no telhado, mas gosto dessa sensação que me transporta para uma outra época e lugar. É como um renovo inesperado e maravilhosamente inspirador.


quarta-feira, 4 de julho de 2012

semeando e dançando

Há algum tempo ando bem cansada como comentei brevemente no último post. (A situação que me incomoda não mudou, mas encontrei consolo depois de uma conversa inspiradora com nossos amigos Joni e Tita ontem).


No último ano, e mais especificamente nos últimos seis meses, minha vida deu uma reviravolta que às vezes ainda me deixa tonta. Graduação, primeiro emprego, primeira promoção e casamento no mesmo ano. E, nossa, eu não imaginava que "vida de adulto" fosse algo tão maravilhoso e exaustivo ao mesmo tempo. 

Adoro a rotina que Fred e eu viemos construindo nos últimos seis meses, tanto que quando ele viaja me sinto perdida. Gosto de estar em casa com ele, e gosto de me sentir adulta, responsável pelas minhas escolhas e responsável também por encontrar a melhor forma de usufruir o tempo, o dinheiro, o lazer, etc.

Mas mudanças, apesar de saudáveis, também causam muito estresse. Em seis meses tivemos que aprender a ser adultos de uma forma que ainda não havíamos experimentado e encontramos vários percalços no caminho. Foi (e tem sido) maravilhoso, mas, ao mesmo tempo, exaustivo.

Hoje voltei a estudar o livro de Eclesiastes, que há muito tempo não lia. Os versículos que ficaram ressoando no meu coração foram: 

Quem observa o vento, nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará  (11:4)


Pela manhã semeia a tua semente, e à tarde não retires a tua mão, porque tu não sabes qual prosperará, se esta, se aquela, ou se ambas serão igualmente boas. (11:6)

Fred e eu estamos vivendo um tempo de lançar muitas sementes... Começo de carreira requer muito suor e creio que as "sementes" podem ser aplicadas a várias áreas da vida. Graças a Deus pela possibilidade de lançarmos nossas sementes com livre-arbítrio confiando Nele para regá-las, né?

No entanto, não quero que esse trabalho árduo de lançar sementes se transforme em algo enfadonho que me impeça de enxergar a beleza na vida. Lendo (e me emocionando) com esse post lindo da Rê, fiquei pensando no quanto é triste ignorar tanta beleza que está ao nosso redor todos os dias. (Não estou falando de ignorar nossas mazelas e as mazelas alheias porque sei também que o mundo está cheio de sofrimento e dor. Longe de mim negar o sofrimento humano ou tentar menosprezá-lo, acredito que ele também pode ser bem didático).

Mas a música está presente sim e eu não quero ignorá-la!

Quero jogar as minhas sementes com leveza, alegria, fé, amor e esperança. Quero me livrar de todas a prepotência de que sou eu quem vai fazê-las germinar. Quero semear e descansar enquanto espero as sementes germinarem, confiando que no tempo certo elas darão seus frutos.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

fim de tarde no portão

Há alguns dias ando bem triste. O motivo principal advém de um cansaço, um esgotamento emocional e uma frustração com uma área da minha vida, que, no momento, não pode ser mudada.O fim de semana foi de muito choro e desconsolo, mas as lágrimas ainda não foram suficientes pra levar embora essa tristeza toda.

Sei que o que mais preciso no momento (além da mudança) é de uma comunhão mais profunda com o Pai. Sei que o Espírito Santo pode me dar o consolo que tanto busco e renovar a esperança que parece minguar a cada dia.Sei também que grande parte da minha ansiedade está relacionada à falta de uma comunhão mais íntima com Ele.

Ando me sentindo como o filho pródigo e por isso posto uma música que toca profundamente o meu coração, "Fim de tarde no portão", do Stênio Marcius.

"Fim de tarde no portão
A cabeça branca ao relento
Teimosia de paixão
Faz das cinzas renascer alento


Na estrada o seu olhar
Procurando um vulto conhecido
Espera um dia abraçar
Quem diziam já estar perdido


O seu amor é tão forte
Mais que o inferno e a morte
São torrentes que arrebentam o chão
Mais fácil secar os mares
Apagar a estrela antares
Que arrancar o amor de seu coração
Fim de tarde se debruça no portão


Mas um dia aconteceu
E o moço retornou mendigo
O pai depressa correu
E abraçou o filho tão querido


Tragam roupas e o anel
Calçem logo os seus pés, milagre!
Vinho do melhor tonel
Tanta alegria em mim não cabe


O seu amor é tão forte.....
Fim de tarde está deserto o portão"


sexta-feira, 15 de junho de 2012

ressonâncias

Li agora esse texto do Ed. René Kivitz que me tocou profundamente. O título já foi suficiente para me intrigar e chamar minha atenção no mar de conteúdos da rede: "Sem perdão não existe amanhã". E o texto não decepcionou, pelo contrário, trouxe luz a várias questões sobre as quais eu vinha "gastando neurônios" ao tentar entender.

Perdão sempre foi para mim um assunto difícil e doído. Mas é impossível não pensar (e muito) sobre ele no cristianismo. Reconhecer a necessidade do perdão, clamar por ele e aceitá-lo é o primeiro passo para a restauração do nosso relacionamento com Deus, por meio de seu filho Jesus. E aceitar-se como pecador necessitado de perdão tem sido um grande problema para a humanidade desde a queda. Temos a tendência de olhar pra nós mesmos como seres bons que não precisam do perdão de Deus por meio da morte de Jesus pra sermos aceitos. Tendemos a acreditar que nossas boas-obras são suficientes pra alcançar a misericórdia de Deus. Pobres de nós.

Mas neste post não quero falar sobre o perdão divino para os nossos pecados, pois o que ressoou em mim ao ler o texto do Ed. René Kivitz diz respeito ao perdão que dou a quem me magoa. E é este aspecto do perdão o mais difícil pra mim. É que quando aceitamos o fato de que somos pecadores e buscamos o perdão de Deus, também precisamos olhar para o outro com misericórdia e perdoar aqueles que nos ofendem. "Perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos aqueles que nos têm ofendido" (oração do Pai Nosso, ensinada por Jesus aos seus discípulos).

Esta parte do "assim como perdoamos..." tem sido a mais difícil pra mim desde tempos imemoriais. Perdoar é difícil demais. C.S Lewis, meu autor favoritíssimo, já havia dito "Todos dizem que perdão é uma idéia adorável, até que eles tenham que perdoar algo".  É por aí...

Acho que perdoar é tão difícil porque parece injusto que alguém cometa "um crime" e saia impune dele. Acredito que o senso de justiça que existe dentro de nós repele a idéia do perdão porque o perdão admite injustiças que não serão reparadas. E aqui, refiro-me especificamente às injustiças cometidas contra nós por aqueles que amamos, ou que um dia amamos.

E é nesse ponto que o texto do Ed. René Kivitz ganhou minha total atenção:
"O sofrimento resultado das fatalidades são acolhidos como vindos de forças cegas, aleatórias e inevitáveis. Mas a traição do cônjuge, a opressão dos pais, a ingratidão dos filhos, a rixa entre irmãos, a incompreensão do amigo, nos chegam dos lugares menos esperados: justamente do ninho onde deveríamos estar protegidos se esconde a peçonha letal".

Como dói ser ferido por quem amamos, não? E como é difícil passar a borracha por cima dessas feridas e continuar caminhando! Perdoar temporariamente e fazer as pazes é fácil, mas quando surge uma nova ofensa que nos magoa profundamente as ofensas passadas vêm à tona na velocidade da luz, e fica muito mais difícil perdoar de novo. O que, na minha opinião, significa que o perdão não foi completo, pois a dívida não foi zerada e ainda nos consideramos credores com um saldo a resgatar. 

Para mim não tem sido nada fácil zerar a conta quanto a ofensa vem daqueles que amo. E isso fica muito claro quando me sinto injustiçada por ofensas presentes e passadas, e nessas horas percebo que eu também quero o ressarcimento da dívida citada por René Kivitz:

"Infelizmente, minha experiência mostra que a maioria das pessoas prefere o ressarcimento da dívida em detrimento do abraço, o que fatalmente resulta em morte: as pessoas morrem umas para as outras e, consequentemente, as relações morrem também. A razão é óbvia: dívidas de amor são impagáveis, e somente o perdão abre os horizontes para o futuro da comunhão. Ficar analisando o caderno onde as dívidas estão anotadas e discutindo o que é justo e injusto, quem prejudicou quem e quando, pode resultar em alguma reparação de justiça, mas isso é inútil – dívidas de amor são impagáveis".

E é justamente por serem impagáveis que é tão difícil lidar com elas. Graças a Deus pela possibilidade que Ele nos dá de perdoar quando Ele decide descer do trono e nos perdoar também. O texto de René Kivitz termina com uma nota de esperança que reproduzo aqui, na esperança de que Aquele que, de antemão perdoou pecados, me dê um coração perdoador: 

"Perdoar é afirmar o amor sobre a justiça, sem jamais sacrificar o que é justo. O perdão coloca as coisas no lugar. E nos capacita a conviver com algumas coisas que jamais voltarão ao lugar de onde não deveriam ter saído. Sem perdão não existe amanhã".