sexta-feira, 15 de junho de 2012

ressonâncias

Li agora esse texto do Ed. René Kivitz que me tocou profundamente. O título já foi suficiente para me intrigar e chamar minha atenção no mar de conteúdos da rede: "Sem perdão não existe amanhã". E o texto não decepcionou, pelo contrário, trouxe luz a várias questões sobre as quais eu vinha "gastando neurônios" ao tentar entender.

Perdão sempre foi para mim um assunto difícil e doído. Mas é impossível não pensar (e muito) sobre ele no cristianismo. Reconhecer a necessidade do perdão, clamar por ele e aceitá-lo é o primeiro passo para a restauração do nosso relacionamento com Deus, por meio de seu filho Jesus. E aceitar-se como pecador necessitado de perdão tem sido um grande problema para a humanidade desde a queda. Temos a tendência de olhar pra nós mesmos como seres bons que não precisam do perdão de Deus por meio da morte de Jesus pra sermos aceitos. Tendemos a acreditar que nossas boas-obras são suficientes pra alcançar a misericórdia de Deus. Pobres de nós.

Mas neste post não quero falar sobre o perdão divino para os nossos pecados, pois o que ressoou em mim ao ler o texto do Ed. René Kivitz diz respeito ao perdão que dou a quem me magoa. E é este aspecto do perdão o mais difícil pra mim. É que quando aceitamos o fato de que somos pecadores e buscamos o perdão de Deus, também precisamos olhar para o outro com misericórdia e perdoar aqueles que nos ofendem. "Perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos aqueles que nos têm ofendido" (oração do Pai Nosso, ensinada por Jesus aos seus discípulos).

Esta parte do "assim como perdoamos..." tem sido a mais difícil pra mim desde tempos imemoriais. Perdoar é difícil demais. C.S Lewis, meu autor favoritíssimo, já havia dito "Todos dizem que perdão é uma idéia adorável, até que eles tenham que perdoar algo".  É por aí...

Acho que perdoar é tão difícil porque parece injusto que alguém cometa "um crime" e saia impune dele. Acredito que o senso de justiça que existe dentro de nós repele a idéia do perdão porque o perdão admite injustiças que não serão reparadas. E aqui, refiro-me especificamente às injustiças cometidas contra nós por aqueles que amamos, ou que um dia amamos.

E é nesse ponto que o texto do Ed. René Kivitz ganhou minha total atenção:
"O sofrimento resultado das fatalidades são acolhidos como vindos de forças cegas, aleatórias e inevitáveis. Mas a traição do cônjuge, a opressão dos pais, a ingratidão dos filhos, a rixa entre irmãos, a incompreensão do amigo, nos chegam dos lugares menos esperados: justamente do ninho onde deveríamos estar protegidos se esconde a peçonha letal".

Como dói ser ferido por quem amamos, não? E como é difícil passar a borracha por cima dessas feridas e continuar caminhando! Perdoar temporariamente e fazer as pazes é fácil, mas quando surge uma nova ofensa que nos magoa profundamente as ofensas passadas vêm à tona na velocidade da luz, e fica muito mais difícil perdoar de novo. O que, na minha opinião, significa que o perdão não foi completo, pois a dívida não foi zerada e ainda nos consideramos credores com um saldo a resgatar. 

Para mim não tem sido nada fácil zerar a conta quanto a ofensa vem daqueles que amo. E isso fica muito claro quando me sinto injustiçada por ofensas presentes e passadas, e nessas horas percebo que eu também quero o ressarcimento da dívida citada por René Kivitz:

"Infelizmente, minha experiência mostra que a maioria das pessoas prefere o ressarcimento da dívida em detrimento do abraço, o que fatalmente resulta em morte: as pessoas morrem umas para as outras e, consequentemente, as relações morrem também. A razão é óbvia: dívidas de amor são impagáveis, e somente o perdão abre os horizontes para o futuro da comunhão. Ficar analisando o caderno onde as dívidas estão anotadas e discutindo o que é justo e injusto, quem prejudicou quem e quando, pode resultar em alguma reparação de justiça, mas isso é inútil – dívidas de amor são impagáveis".

E é justamente por serem impagáveis que é tão difícil lidar com elas. Graças a Deus pela possibilidade que Ele nos dá de perdoar quando Ele decide descer do trono e nos perdoar também. O texto de René Kivitz termina com uma nota de esperança que reproduzo aqui, na esperança de que Aquele que, de antemão perdoou pecados, me dê um coração perdoador: 

"Perdoar é afirmar o amor sobre a justiça, sem jamais sacrificar o que é justo. O perdão coloca as coisas no lugar. E nos capacita a conviver com algumas coisas que jamais voltarão ao lugar de onde não deveriam ter saído. Sem perdão não existe amanhã".