quinta-feira, 28 de novembro de 2013

"Seu Google, nós existimos" - Ressonâncias

Tenho pensado muito em usar esse espaço do blog para "guardar" alguns tesouros com os quais me deparo, muitas vezes até por acaso. A ideia é fazer do blog uma coletânea de pensamentos que me inspiram e que eu gostaria de reler sempre.

Inauguro a ideia com as ressonâncias de um texto que me tocou profundamente, escrito pela admirável Eliane Brum.

"É também a capacidade de imaginar um mapa, de fora e de dentro, que nos define, já que a primeira cartografia de cada um é o corpo. Depois, a casa onde evoluímos em nossa geografia íntima. É triste que os mapas de nossas vidas estejam cada vez mais restritos, mais tacanhos, cheios de barreiras e de senhas, ao refletir esse mundo que vai se apequenando pelo medo do mundo de quase todos os outros. Cada vez mais nosso mapa inclui menos gente, restrito aos interesses territoriais da família ou nem isso, e acaba na porta da rua. Os muros que erguemos internamente deveriam nos escandalizar tanto quanto aqueles que separavam – e separam – os povos no embate da história. Os muitos muros fincados na forma de vidros escuros, portas gradeadas, cercas eletrificadas, as concretas e as subjetivas, são um aviso também de que não reconhecemos todos os outros como parte do nosso mapa. E de que para nós é mais natural desejar um pequeno lago individual que um rio que mata a sede de muitas aldeias. Ao contrário das crianças das favelas de Calcutá, temos sido maus construtores de pontes". 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Querida Mims,

Há mais de seis meses eu recebi a notícia trágica do seu acidente e me parece que foi ontem. A sensação de perplexidade, o susto e o coração acelerado ainda estão bem presentes todas as vezes que penso em você. 

Acho que o dia do seu velório foi um dos mais tristes da minha vida. Eu não conseguia acreditar que era a sua morte que todos estávamos chorando. Aliás, eu nem conseguia chorar. Ficava andando de um lado para o outro na esperança de fugir da dor intensa que estava dentro de mim. 

Tantas conversas deixamos interminadas... Lembra que da última vez que nos vimos foi preciso  interromper o assunto pela metade porque tínhamos chegado na porta da sua casa? Você tentando me convencer a não sair do jornal por causa do mestrado, enquanto eu apresentava mil argumentos para te provar que era muita responsabilidade ao mesmo tempo... A última coisa que você me disse antes de sair do carro foi:

- "Eu sei que é muita coisa, amiga, mas sei também que você dá conta". 

Quando você desceu eu senti aquela dorzinha que me dava todas as vezes que nos despedíamos e logo veio me veio o pensamento: "Queria tanto que ainda nos encontrássemos todos os dias...". 
Se tinha algo capaz de me fazer ir feliz para a faculdade era a certeza de encontrar você, Manu e Celinha por lá. Você não sabe o quanto foi doído voltar da Noruega e não tê-las como colegas de classe. Cheguei a ficar meio depressiva e nem gostava de descer pro pátio na hora do intervalo porque sempre que estava lá, me vinham as lembranças das nossas conversas, risadas e canções...

Lembra do dia em que nos sentamos na rodinha e começamos a cantar MPB? A lua estava linda naquela noite e a gente pagou o maior micão. Mas eu nem ligava, porque a felicidade de estar com amigas de alma era maior do que a vergonha de mostrar minha falta de afinação :P

Essa mesma felicidade da época da faculdade me acompanhou durante todo o ano em que trabalhávamos de frente uma pra outra. Acho que você não fez ideia do quanto nossos almoços tornavam minha rotina de trabalho mais leve. Aliás, era uma enorme frustração quando não podíamos almoçar juntas...

Até as viagens chatíssimas à trabalho se tornavam mais leves quando nos encontrávamos. Você acompanhando "seu deputado" e eu acompanhando "o meu". As duas mal-humoradas por ter de perder o fim de semana na estrada :)

E foi exatamente por causa do estresse que a sua rotina de trabalho pesadíssima te gerava que eu fiquei tão feliz quando você arranjou outro trabalho. Nossa, eu vibrei muito aqui em casa com o Fred. Mal sabíamos que seria em uma viagem motivada pelo novo emprego que você sofreria aquele acidente...

Voltei ao campus V na semana passada e não pude conter as lágrimas no momento em que pisei ali. As lembranças doeram demais. A mesma coisa acontece todas as vezes que invento de almoçar no Campanhola...

Mas essa dor que acompanha as lembranças me incomoda bastante porque tratam-se de lembranças felizes!

Acho que sem perceber, comecei a construir um monumento à sua morte, sabe? Como se ela fosse capaz de solapar a sua vida e tudo o que o contato entre as nossas vidas representou pra mim! Alimentar isso seria um desrespeito à sua memória e uma incoerência com a fé cristã. Porque eu acho que você já sabe, mas eu preciso repetir pra mim mesma que a ressurreição é a base da minha fé...

É por isso que de hoje em diante eu quero caminhar sorrindo, mesmo quando a saudade apertar. Sei que a dor pela sua partida vai continuar me acompanhando. Mas quero aprender a cultivar sorrisos pela sua vida e pela personalidade maravilhosa que o Senhor Deus lhe deu. Quanta inspiração para todos nós que tivemos a chance de conviver contigo! Obrigada, de coração, por ter compartilhado uma parte da sua caminhada comigo! Vou me lembrar de você com carinho e gratidão enquanto eu viver.

Com isso em mente, escrevo essa carta para me despedir de você. Queria muito ter tido a chance de dizer adeus e reafirmar o quanto você era importante pra mim antes da sua partida.  Mas isso não foi possível e talvez tenha sido melhor assim... 

Até porque, da última vez em que nos falamos pelo telefone (quatro dias antes do seu acidente), nos despedimos da forma mais legal possível: combinando nosso próximo encontro! Por isso vou acalentar diariamente a esperança de te encontrar com aquele sorriso lindo quando chegar a minha hora de partir. 

Amo muito você,

Um abraço (daqueles de urso bem apertado que você sabia dar tão bem), 

Erica 




quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Sossegai

[Marcos 4:35-41, Lucas 8:22-25 e Mateus 8:23-27]


"Ó Mestre o mar se revolta, as ondas nos dão pavor, 
O céu se reveste de trevas, não temos um Salvador. 
Não se Te dá que morramos, podes assim dormir?
Se a cada momento nos vemos, sim prestes a submergir!

[coro] 
As ondas atendem ao meu mandar, sossegai;
Seja o encapelado mar, a ira dos homens o gênio do mal,
Tais águas não podem a nau tragar,
Que leva ao Senhor Rei do céu e mar!
Pois todos ouvem o meu mandar, sossegai, sossegai,
Convosco estou para vos salvar, sim sossegai!
 

Mestre na minha tristeza, estou quase a sucumbir, 
A dor que perturba minha alma, eu peço Te vem banir. 
De ondas do mal que me encobrem, quem fará sair?. 
Pereço sem Ti ó meu Mestre, vem logo vem me acudir. 

Mestre chegou a bonança, em paz eis o céu e o mar, 
O meu coração goza calma, que não poderá findar. 
Fica comigo ó meu Mestre, dono da terra e céu. 
E assim chegarei bem seguro, ao porto destino meu"


Horatio Richmond Palmer (1834-1907) 
Mary Ann Baker ( 1831 -1881)