quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Diário de gravidez - reflexão sobre a quaresma

Oi, filho,

A Quaresma começou ontem no calendário cristão. Esse período é composto por 40 dias de arrependimento e contrição que nos preparam para celebrar a ressurreição de Jesus na Páscoa. Cultivamos nesse período arrependimento e contrição pelos pecados que pregaram Jesus naquela Cruz. Mas tais sentimentos são vivenciados à luz da esperança da ressurreição do Crucificado, evento que traz à memória a vitória Daquele que se humilhou para depois ser glorificado.

Cristo sofreu por nós, filho. Mesmo sendo puro, imaculado, justo e santo, Ele se entregou em nosso lugar e teve uma morte de Cruz. O filho de Deus não reivindicou sua autoridade divinal, antes, se fez carne e se humilhou perante toda a humanidade.

Este ano, alguns dias antes do início da Quaresma recebemos a notícia de que 21 cristãos egípcios foram brutalmente assassinados pelo Estado Islâmico. O vídeo da execução está circulando na internet, gerando repúdio em toda a parte.

Meu coração se entristece pelas famílias enlutadas desses e de todos aqueles que perderam suas vidas nas mãos do Estado Islâmico e a admiração que sinto por cristãos fiéis, que mesmo em face da morte não negam seu Senhor, é grande demais.

"Se como Ele morreram, como ele ressuscitarão"

 Que bela promessa! Mas quantos somos corajosos o suficiente para levarem-na a sério?

Acho estapafúrdias essas interpretações hollywoodianas do Apocalipse que pregam que a Tribulação ainda está por vir. O que diriam sobre tais ideias os cristãos que desde o Pentecostes tiveram suas vidas cruelmente ceifadas por confessarem a Jesus como Senhor?

Se aqui no Ocidente ainda desfrutamos de liberdade de culto e adoração, Glória a Deus! Mas não nos esqueçamos dos nossos irmãos que são diariamente perseguidos e mortos por causa de sua fé. Não sei como estará o mundo quando você tiver idade para compreender este post, filho. Mas oro para que a Igreja brasileira desperte e saia do comodismo em que está inserida. Que nossas agendas estejam menos auto-centradas e preocupadas com nossos eventos gospel. Que tenhamos mais amor uns pelos outros, inclusive por aqueles que sofrem pelo nosso Senhor.

E que se um dia nossa fé também for testada, possamos proclamar com ousadia o amor que sentimos pelo Crucificado.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Diário de gravidez - 31 semanas e 2 dias

Oi, filho,

Já reparou que tá cada vez mais perto a hora da sua chegada? Quer dizer, você já chegou há um tempinho, mas loguinho a gente vai poder te ver, tocar, cheirar, ninar... Hoje tivemos nossa consulta pré-natal e eu passei o resto do dia pensando no dia do parto, tentando visualizar este momento que, de tão inimaginável, às vezes me deixa bem ansiosa.

À tarde li uns blogs de mães e percebi minha ansiedade aumentar consideravelmente. É que este mundo da maternidade é tão novo pra mim! A gente cresce achando que algumas coisas são naturais e instintivas e depois percebe que grande parte dos nossos comportamentos são adquiridos e condicionados culturalmente. Foi por isso que me senti tão "sem chão" quando fiz intercâmbio na Noruega. E agora, entrando aos pouquinhos neste mundão vasto da maternagem, percebo que existem inúmeras formas de criar um ser humano e que elas já começam na gestação!

Descobri só hoje (santa ignorância) um tal de método montessoriano que estimula a autonomia do bebê. Descobri também que suco de fruta não é tão saudável quanto se pensa e que não é recomendado para crianças pequenas. Mas a descoberta chocante foi que amamentar não é tão "natural" e instintivo quanto parece e que existem várias teorias no que diz respeito a horários das mamadas, quantidade de leite dada, estabelecimento de rotina, livre demanda, etc, etc, etc.

E em meio a tanta informação eu comecei a me sentir perdida, sabe? Como sou perfeccionista em TUDO na vida, não poderia ser diferente no tocante à maternidade. E desde que descobri que tinha um bebezinho crescendo dentro de mim, comecei a alimentar milhares de expectativas sobre a forma como gostaria de te educar. Mas é claro que essas expectativas sempre envolvem um grau enorme de perfeição da minha parte e uma resposta absolutamente positiva e receptiva da sua parte.

Até que me deparei com todas essas vozes que são TÃO dissonantes entre si acerca da "forma correta de se criar os filhos" e percebi que NÃO EXISTE UM MÉTODO PERFEITO e que os bebês humanos vêm SEM MANUAL DE INSTRUÇÕES.

Quando o desespero ficou tão grande, mas tão grande que me deu até taquicardia, fiz uma oração breve, mas muito fervorosa. Foi mais ou menos assim:

"Pai, 

Eu canso de dizer que não sou perfeita e que dependo de ti, mas nesses momentos de angústia e ansiedade percebo o quanto ainda acredito que as coisas dependem de mim. Quanta ingenuidade pensar que o caráter do meu filho será determinado por mim! Ajuda-me a discernir até onde vai o meu papel de mãe e até que ponto não posso mais interferir. Desde o ventre, Senhor, eu consagro esta criança a ti. Sei que Fred e eu vamos errar infinitas vezes na criação do nosso filho. Provavelmente daremos muitas coisas erradas pra ele comer, bagunçaremos sua rotina de sono e deixaremos ele assistir porcaria na televisão (mesmo que sem querer). Duvido muito que ele nunca nos veja brigando (afinal, eu tenho "sangue quente")  e duvido também que não cometeremos nenhum tipo de injustiça com ele. Mas duas coisas te peço somente: que ele nunca duvide do nosso amor por ele e que nós não falhemos em testemunhar do teu amor por ele. Que apesar de todas as nossas falhas que se tornarão perceptíveis pra ele muito mais cedo do que imaginamos, a certeza de que ele é amado por ti e por nós dê ao nosso filho a base sólida que ele precisa para desenvolver uma identidade sadia de quem se sente aceito e acolhido. Ajuda-nos a não nos afastarmos de Ti, Senhor, e a amarmos nosso pequeno do jeito que ele precisa ser amado. Em nome de Jesus, amém". 

Depois de depositar minhas ansiedades aos pés do Pai, senti o sufoco me abandonar e até consegui ter uma noite relax (daquelas que eu tinha muito antes de engravidar, rs). E que fique registrado desde agora, filho, meu enorme desejo de "acertar" como mãe. Mas se por ventura eu errar (e irei), não duvide do quanto eu te amei antes mesmo de te conhecer cara a cara. E que esse amor vai permanecer enquanto eu viver, independente de como as coisas acontecerem. Nunca duvide, filho, do quanto você é amado.




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Diário de gravidez - 30 semanas

Filho,

Hoje o dia começou ainda antes do sol raiar já que eu precisava fazer exames de sangue em jejum. O tempo que sobrou da manhã após as longas horas de espera no laboratório foi usado para resolver uma pendência mega importante: a compra do seu berço. Ao chegar em casa devaneando sobre o seu quartinho após a compra do móvel principal, gastei horas e horas e horas da tarde lendo sobre enxoval de bebês, como criar um ambiente seguro, prós e contras dos kits-berço (descobrindo inclusive que são contra-indicados pela Sociedade Brasileira de Pediatria), etc... Durante a noite a maratona "gestante-futuramamãe" continuou a todo vapor, já que hoje é dia do curso de preparo físico para o parto normal, oferecido pela Unimed.

Cheguei em casa com todo gás para continuar minhas pesquisas sobre enxoval. É que depois de finalmente começar, deu uma vontade louca de finalizar a montagem e a decoração do seu quartinho. Isso aumenta a sensação da sua chegada iminente, entende? Mas, como nem tudo na vida se resume à vida de gestante, decidi trabalhar um pouquinho. E aí veio a parte tensa do dia.

Meu trabalho de jornalista home-office envolve a leitura diária de notícias nacionais. E filho, é cada coisa indigesta com a qual a gente se depara nesse simples exercício, não? Meu primeiro baque começou com a notícia de que o Estado Islâmico anunciou ter queimado vivo o piloto jordaniano que mantinha como refém. Pára tudo! Todo mundo sabe que os jihadistas do Estado Islâmico têm humanidade de menos e crueldade demais (algo demoníaco mesmo), mas daí queimarem uma pessoa viva? Me coloquei no lugar da esposa desse cidadão e já comecei a sentir um nível de dor e desespero quase enlouquecedor.

A maratona de notícias pesadas não parou por aí. Relatório da ONU apontou que desde a década de 1980 pra cá o número de assassinatos de jovens no Brasil aumentou quase 200%. E como era de se esperar, os jovens negros são os protagonistas desta brutalidade. Nascidos para morrer antes dos 30, essa é a sina de boa parte dos nossos jovens. E tem gente que, diante disso tudo, ainda defende a redução da maioridade penal. Não sei o que me assusta mais nesse país.

Dando prosseguimento à sessão de terror da noite, reparei no tanto de notícias que falam sobre a crise hídrica em São Paulo. E aí sim aquela sensação de "Fim dos Dias" não tardou a se apoderar de mim. A coluna de ontem da Eliane Brum faz uma análise profunda e extremamente doída sobre o assunto. Ao lê-la a vontade que sinto é de sentar e chorar.

Chorar pela degradação do planeta que continua a passos largos apesar de todos os indícios de que seremos nós, os principais algozes, os mais prejudicados.
Chorar pela humanidade caída, perdida, consumista, egoísta, maldosa e extremamente cruel.
Chorar pelo desamparo daqueles que já nascem marcados para morrer.
Chorar pelo seu futuro incerto em um mundo caótico, filho.

Às vezes sinto um medo enorme se apoderar de mim. Quase uma acusação por trazer um ser humano a um mundo louco como esse. Mas aí, acontece uma ou outra coisa que renova a esperança, sabe? Tipo aqueles cheiros de comida de vó que nos lembram das férias da infância ou uma música muito querida que nos transporta para um momento especial.

Hoje esse momento de renovo se deu no supermercado. É que depois de sair do curso do parto passei no mercadinho aqui do bairro porque estávamos quase à pão e água. Meu mau-humor já começou no estacionamento apertadíssimo e só piorou quando eu constatei que a mercado estava lotado. Ao chegar na fila do ÚNICO caixa preferencial, fiquei ainda mais irritada com o tamanho da fila. Mas aí aconteceu aquilo que me pegou de surpresa. O casal de idosos que estava na minha frente começa a conversar sobre a presença de uma gestante na fila e decide que eu devo passar na frente. Muito constrangida eu recuso dizendo: "Imagina, vocês é quem devem ir primeiro". Ao que o senhor me responde: "Você vai, afinal, o bebê merece respeito".

Saí de lá com um aperto na garganta diante da demonstração de tanta gentileza. A gente se acostuma tanto à falta de cortesia e cuidado com o próximo que se admira quando se depara com gente que ainda não deixou de ser gente.

Aí eu me lembro que no começo tudo foi criado de forma perfeita. Seres humanos e animais conviviam de forma pacífica em um lindo jardim. Homem, mulher, bicho, árvores, tudo coexistindo na mais perfeita paz e harmonia. Além de tudo isso, a presença visível do Criador enchia esse ambiente e dava significado à existência de tudo e todos.

Todos sabemos que algo deu muito errado e de lá pra cá todas essas tragédias tomaram o palco. Mas elas não têm o papel principal. Desde que o mal entrou no mundo, veio com ele uma promessa de restauração e o início dessa tal restauração já foi dado quando o Filho veio ao mundo e inaugurou aqui o seu Reino.

Meu principal desafio é enxergar o Reino em meio a todas essas tragédias. Preciso me lembrar todos os dias que elas não protagonizarão o último ato. Assim sendo, não é para este mundo que trago um novo ser humano, mas para um mundo cheio de amor, esperança, alegria e significado.

Lembro-me das palavras de Aslam para as crianças na última das crônicas de Nárnia: "Acabaram-se as aulas: chegaram as férias! Acabou-se o sonho: rompeu a manhã!".

Pode ser que demore um pouco pra que a manhã finalmente rompa, filho. Mas tenho certeza de que quando acontecer, tudo terá valido a pena. O narrador de Nárnia continua: "Para nós, este é o fim de todas as histórias, e podemos dizer, com absoluta certeza, que todos viveram felizes para sempre. Para eles, porém, este foi apenas o começo da verdadeira história".

Que nossas vidas aqui sejam marcadas pela Esperança.