sábado, 28 de março de 2015

Diário de gravidez - 37 semanas e 3 dias

"Acaso faço chegar a hora do parto e não faço nascer? ", diz o Senhor. "Acaso fecho o ventre, sendo que eu faço dar à luz? ", pergunta o seu Deus."  Isaías 66:9

Oi, filho!

Agora estamos pertinho de te conhecer! Essa semana a gestação chegou à termo, o que significa que você pode nascer a qualquer momento sem ser considerado um bebê prematuro. Legal, né? Dá pra imaginar meu nível de ansiedade desde que apareceu 37 semanas no calendário gestacional? Pensar que a qualquer momento você pode "pedir pra sair" é emocionante demais! E ao mesmo tempo enche a gente de uma expectativa que pode até virar obsessão se eu não focar meus pensamentos em outra coisa. Afinal, uma gestação normal vai até 42 semanas e você não tem nenhuma obrigação de nascer antes disso. Sua mãe precisa arranjar uma forma de abrir mão do desejo de controle se quiser te esperar tranquila. Obrigada porque mesmo antes de nascer você já me motiva a lutar contra a ansiedade, filho.

Mas confesso que desde que entrei na semana 37 senti meus níveis já elevadíssimos de ansiedade subirem ainda mais. É que além de estar doida pra te conhecer, a barriga está bem pesadinha e eu quero muito ter um parto natural. E desde o começo a dr. Aline, obstetra que tem nos acompanhado com muito zelo e dedicação, me alertou sobre a possibilidade de você ficar pesado demais e diminuir o bom prognóstico para um parto vaginal.

E, como não é de se estranhar, você já entrou nas 37 semanas com medidas de 38: 50 cm e estimativa de peso de 3,4 kg! Você sabia que boa parte dos bebês nasce antes de completar essa marca, filho?

Dr. Aline tem se mostrado bem alarmada com sua vontade enorme de continuar crescendo dentro da barriga, já que até agora você não nos deu nenhum sinalzinho de que pretende pedir pra sair tão cedo. Ela me aconselhou a te esperar até o dia 15/04. Se até lá eu não entrar em trabalho de parto, sugeriu que marcássemos uma cesariana. Mas se eu quiser muito esperar você pedir pra nascer de forma natural, ela disse que me encaminha para um colega obstetra que faz partos vaginais com maior margem de risco.

Imagina o nó que essa informação deu na minha cabeça, filho! Passei o dia de ontem inteirinho refletindo sobre o assunto e cheguei à conclusão de que quero muito esperar você pedir pra nascer. Diante da possiblidade de trocar de G.O a essa altura do campeonato meu coração ficou bem apertadinho e eu passei o dia inteiro pilhada, triste e ansiosa.

Conversando sobre o assunto com a Giovanna, uma querida amiga que teve o André há pouco tempo de parto natural, ela me falou de como foi alentador se deparar com Isaiáis 66:9 quando estava grávida.

Quando li o versículo fiquei muito feliz. É sempre bom lembrar da soberania de Deus sobre todas as coisas. E filho, acompanhar seu crescimento aqui dentro de mim sabendo que eu nada fiz para colaborar para isso tem sido uma experiência maravilhosa demais! Pensar que o doador da Vida me escolheu para te gerar enche meu coração de gratidão e alegria!

A Gi me falou que pensou muito na vida de Maria, a mãe do nosso Senhor Jesus, durante a gestação. De fato, não existe na história um exemplo maior de entrega do que o dela, filho. Ao saber que ficaria grávida aos 16 anos de idade correndo o risco de perder o noivo, cair em descrédito público e perder a reputação, tudo o que Maria disse ao anjo que lhe deu a notícia foi: "Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra". (Lucas 1:38)

Eu não sei o quanto do plano salvador de Deus Maria entendia nesse momento. Mas ela compreendeu bem seu papel como instrumento do Senhor e se dispôs a sê-lo. Bonito, não?

Quero me dispor também, filho. Quero entregar toda a minha ansiedade nas mãos Daquele que já planejou o dia e a forma como você chegaria antes mesmo da fundação do mundo. Sei que Ele nos mostrará a hora certa e não nos desemparará.

Por isso não precisa se apressar, filho. Minha vontade de ver seu rostinho vai continuar crescendo até o dia em que finalmente nos encontrarmos. E que dia inesquecível será!

Diário de gravidez – * 35 semanas e dois dias

“Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus.


Li em algum lugar que a ansiedade é a doença do século. Na hora pensei: “Ufa, pelo menos não sou a única que vive com o coração apertadinho de pura ansiedade”.  No entanto, refletindo melhor sobre o assunto essa semana cheguei à seguinte indagação: “Por que tenho andado tão ansiosa?”.

Ansiedade tem sido uma companheira fiel desde a infância. Às vésperas de uma viagem em que teria de levantar cedo eu mal conseguia dormir à noite, e não era pela empolgação, o que roubava meu sono era o receio de perder a hora. Quando tinha de apresentar um trabalho escolar pela manhã as noites também eram longas e agitadas.

Comigo foi sempre assim, ansiedade = noites mal dormidas.

Desde que engravidei percebi uma queda considerável na qualidade do meu sono. E não é só porque a barriga pesa e fica difícil encontrar posição para dormir. As noites mal dormidas se fizeram bem presentes já no comecinho da gravidez. E a razão disso pra mim é clara como cristal: pura ansiedade.

Alguém poderia até argumentar que esse sentimento é normal diante da mudança de vida que a chegada de um filho traz. E eu responderia: “Normal é, mas adianta?”.

Ao pregar sobre nossa tola ansiedade, pastor Augustus Nicodemos falou algo que me deu muito o que pensar: “Na maioria das vezes, nos deixamos tomar por ansiedade acerca de questões sobre as quais não temos nenhum controle. Você vai dormir preocupado com algo, mas nem sabe se acordará na manhã seguinte”.

O antídoto contra a ansiedade seria entregar tudo diante do Pai com súplicas e ações de graças, como recomenda Paulo na carta aos filipenses. Simples, né?

Só que não.

Essa entrega pressupõe um momento diário de comunhão, oração e contemplação. Não foi em vão que Jesus instruiu seus ouvintes a contemplarem os pássaros e os lírios dos campos para que não ficassem ansiosos sobre “o que comer ou vestir”.

Esta contemplação da Criação é extremamente didática. Ao olharmos a natureza, lembramo-nos do Criador. E mesmo em meio ao caos ambiental percebemos que as plantas continuam florindo e que os pássaros continuam voando. Quem é que os sustenta diariamente?

Em meio à uma enorme crise de estresse e ansiedade essa semana, decidi colocar o conselho de Jesus em prática e me sentei na varanda para observar o pôr-do-sol. Que fantástico! Se ao olhar pra baixo via as ruas poluídas de uma cidade mal gerida e árida, ao olhar pra cima via a perfeição de um céu que nunca é igual. Fiquei atônita com as múltiplas cores de um sol que nasce e se põe todos os dias, sem que qualquer um de nós possa fazer absolutamente nada à respeito.

Ser cristão implica, entre outras coisas, em acreditar que existe um Criador sustentando o universo. E mais do que isso, Alguém que se importa com as menores demandas de cada uma de suas criaturas. Alguém que deseja se relacionar de perto conosco e nos encher com a “plenitude da sua graça”.  Muitos de nós temos nos contentado com tão pouco. Deixamos de buscar essa plenitude e vivemos com pequenas gotas de Graça que Ele, do alto de sua Misericórdia e Amor, nunca deixa de nos oferecer.

Eu quero mais.


* Texto escrito no dia 12/03/2015