sexta-feira, 10 de abril de 2015

Diário de pós-parto - décimo quarto dia

Oi, filho,

Amanhã você completa duas semanas. Nessas duas semanas cabe toda uma vida: não apenas a sua, mas também a minha, pois sinto como se eu tivesse renascido no dia em que você nasceu. Talvez por isso a sensação de vulnerabilidade e fragilidade sejam tão fortes no puerpério. Li e ouvi que essa é uma fase extremamente solitária para a mulher.

 Isso é fato.

Apesar de toda a rede de apoio ao meu redor, acho que nunca me senti tão só. A experiência do puerpério envolve fatores hormonais, neurológicos, emocionais e também espirituais. Gosto de compará-la à experiência cristã do deserto, aquele momento da vida em que Deus trabalha em nosso caráter por meio da solidão e da dor.

Sei que não estou sozinha, aliás, sua presença constante demandando colo, peito, carinho, cuidado e afeto são um lembrete de que a partir de agora dificilmente estarei só. Mas às vezes vejo-me neste deserto e contemplo você ali tão pequeno, tão frágil e necessitado de atenção e quando olho pra mim tudo o que vejo é outra criança igualmente frágil, morrendo medo de meter os pés pelas mãos.

Seu pai me parece igualmente frágil e vulnerável e anda trabalhando duro dentro e fora de casa pra tornar a sua vida e a minha melhores. Não tenho palavras para agradecê-lo por tanta dedicação e cuidado.

Lamento o fato de você depender de seres tão falhos como nós, filho. Mas lembro do que Deus disse à Paulo e vem me dizendo todos os dias: "A minha graça te basta".

Nessa esperança vamos caminhando. Louvo a Deus pelas suas duas semanas e pela saúde de ferro que Ele te deu. Minha oração de todos os dias é que consigamos comunicar a você o nosso amor de modo que você nunca tenha dúvidas do quanto é amado.



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Diário de pós-parto - décimo segundo dia

Oi, filho,

Estou aproveitando sua soneca vespertina pra escrever este post, apesar de o meu cansaço também estar pedindo um cochilo. Todavia, não abandono a ideia de registrar as emoções do pós-parto porque acho que elas são preciosas demais, embora nem sempre agradáveis.

Desde que você completou 2 dias de vida comecei a sentir uma melancolia tão grande que cheguei a pensar que estava sofrendo de depressão pós-parto. E pode ser que em algum momento desse período sentimentos depressivos e opressores de fato tenham me engolfado. Agora, graças ao bom Deus, não sinto mais a névoa de escuridão que me envolveu nos seus primeiros dias, mas a melancolia continua aqui e acho que ela tem a ver com o puerpério.

Sempre que olho pra você sinto um misto de alegria e tristeza. Alegria pela sua vida, saúde, vitalidade e fofura. Tristeza pelo fato de que você nasceu em um mundo caído e corrompido pelo pecado, o que significa que você inevitavelmente vai experimentar o sofrimento e a dor. E como vida de recém-nascido não é nada fácil, você já começou a senti-lo por meio dos gases doídos que te acometem de vez em quando.

Quando olho pro seu rostinho tão perfeito e penso nas inúmeras dores pelas quais você vai ter de passar, sinto um aperto no peito que não se compara a nenhuma tristeza pela qual já tenha passado nessa vida. Se eu pudesse, te colocaria numa redoma de vidro pra que você nunca tivesse que passar por nenhuma dor ou sofreria todas elas no seu lugar.

Um dia li que ser mãe é ter para sempre o coração fora do peito. Acho que essa é a descrição mais precisa da maternidade.

Desde que você nasceu, tenho me sentido extremamente vulnerável e isso dói a ponto de eu pensar: "O que eu fui fazer com a minha vida?".  Mas como eu acredito na soberania de um Deus criador e pessoal, esse pensamento é logo dissipado pela certeza de que a sua vida jamais poderia ter sido planejada por mim, e sim confiada a mim em um ato de extrema bondade e graça Daquele que te criou.

Com isso em mente, sigo confiante de que Ele vai nos capacitar a cuidar bem de você. Mas nesses primeiros dias confesso que cada saída de casa com você à tira-colo me causa um enorme aperto no peito! Tenho a impressão de que você está extremamente desconfortável no bebê (des)conforto e o trânsito bárbaro da nossa cidade me faz pensar que um bebê tão pequeno e delicado tem que ficar sempre quietinho dentro de casa.

Ontem, enquanto esperávamos seu pai dentro do carro, vi um pai passeando com o filho pequeno na calçada e pensei se um dia eu teria tranquilidade para fazer o mesmo com você. No momento essa ideia me parece absurda. Mas creio que aos poucos Deus vai preparando meu coração pra isso também.

Uma coisa que tenho aprendido no puerpério é que é preciso viver um dia de cada vez. Se ontem eu me desesperava quando chegava a hora do seu banho de tanto medo que tinha de que alguém te deixasse cair, hoje até consigo tirar um cochilo enquanto seu pai faz isso com todo zelo e carinho.

O cansaço e a falta de vontade de fazer qualquer coisa (que não envolvam cuidar de você) também são bem característicos desses dias. Mas espero que aos poucos consigamos estabelecer uma rotina saudável e a energia e a vitalidade voltem com força total (embora nesse momento seja extremamente difícil acreditar nisso).

[pausa para atender seu choro - continua no próximo post]

sábado, 4 de abril de 2015

Diário de pós-parto - oitavo dia

Oi, filho,

Hoje faz uma semana que você nasceu! Foram tantas emoções que parece que passou um ano! Ao mesmo tempo, parece que passou rápido demais...

Embora seja tão pequenininho você já fez algumas peripécias que nos impressionaram. Arrastou para trás o corpinho com as perninhas dentro do berço à ponto de encostar a cabeça nas grades e chutou a almofada do sofá a ponto de quase derrubá-la no chão!

Todo mundo fala o quanto você é forte! Sua avó Sheila viu fotos de ontem e disse que você nem se parece com um recém-nascido, e sim com uma criança de alguns meses. Isso traz alívio ao seu pai e eu porque por alguns momentos fomos tentados a pensar que nosso estresse e ansiedade tinham feito a bolsa romper antes da hora. Mas Deus é tão gracioso conosco que na manhã do dia que você nasceu fomos ao curso da Unimed pegar uma aula de reposição e nos reparamos com Eclesiastes 3:1-2. De fato não temos dúvidas de que você veio na hora certinha e eu, que desejei tanto que você nascesse na semana 37,  me sinto muito agraciada!

Antes de ontem levamos você pra tomar vacina BCG e contra hepatite B. Na hora de te espetarem com a agulha pediram pra que seu pai e eu falássemos com você, já que é na nossa voz que você confia. Saí de lá refletindo sobre o privilégio e a responsabilidade implicados nisso. Saber que tem um novo ser que confia inteiramente em nós nos enche de gratidão e alegria. Por outro lado, o medo de te decepcionar é grande demais, filho. E o pior de tudo é saber que isso vai acontecer. Só espero que esse laço de confiança que se formou entre nós três desde o ventre nunca se parta. Sei que somos falhos demais pra isso, mas confio na Graça Daquele que nos confiou a sua vida.

Assim como eu, seu papai está bem inseguro. Quando ele te pega e você começa a chorar, ele fica com receio de estar estressando você. Mas eu acho pura bobagem porque ele é o pai mais jeitoso que existe. Precisa de ver a delicadeza com a qual ele te segura. Ontem até fotografei ele te dando banho! É tão cuidadoso que parece que faz isso há anos! De fato você e eu somos muito privilegiados por tê-lo em nossas vidas. E eu, que sempre soube que tinha "tirado a sorte grande" com o meu marido, agora tenho certeza de que não poderia desejar um pai melhor e mais dedicado para os meus filhos :)

Hoje tivemos um dia cheio de visitas e você se comportou como um príncipe :) Ficou no colinho de todos sem reclamar e fez charminho o tempo todo. Tem gente que fala que eu não devia te dar tanto colo porque corro o risco de você não querer mais  saber de berço e eu não conseguir fazer mais nada. Confesso que tenho medo que isso aconteça, mas por outro lado penso "e o que de mais importante eu tenho pra fazer?".  Sei que essa fase vai passar super rápido e daqui a uns dias você já vai estar engatinhando pra todo lado e nem vai querer saber de colo. Então eu tenho mais é que aproveitar esse amor espresso em vontade de ficar juntinho, não?

O mesmo acontece quando você chora entre uma mamada e outra pedindo peito.  Como é que eu vou saber se você está chorando de fome ou de sede? E se tiver querendo ficar só mais pertinho? Às vezes fico quebrada porque você quer mamar de hora em hora durante a noite e sei que isso não é sustentável à longo tempo. Mas tenho esperança de chegarmos a um acordo que não seja traumático pra você nem pra mim.

Quanto ao seu parto, a cada dia estamos mais convictos de que você nasceu da melhor forma possível. Arriscar um parto normal nas condições em que você estava quando a bolsa estourou seria colocar sua vida em perigo. Não vou negar que ainda lamento muito não ter sentido você saindo de mim. Mas dou graças a Deus pela forma tão segura e cuidadosa como você nasceu. Tenho certeza de que Ele estava conosco no centro cirúrgico o tempo inteiro e usou aquela equipe de médicos maravilhosa pra nos mostrar o quanto se importa conosco.

Essa primeira semana foi cheia de altos e baixos. Estamos muito felizes com a sua chegada e a cada dia mais apaixonados por você. Mas estamos cheios de medos de fazer tudo errado. O que me consola é lembrar do que Aslam disse ao Príncipe Cáspian quando ele ponderou se estava pronto para ser o rei de Nárnia.

É muito bom saber que temos um Deus que se importa tanto conosco e que nos capacita. E o fato de você ter nascido na véspera da Páscoa nos faz pensar no sacrifício de Jesus de uma forma ainda mais pessoal. É duro demais pensar que um dia você vai morrer. Mas graças ao sacrifício do filho unigênito de Deus, você também vai ressuscitar e viver eternamente. Agora que temos esse amor tão profundo por você, eu consigo imaginar um pouquinho do sofrimento do nosso Deus vendo o filho Dele pendurado naquela Cruz. É muita dor, filho!

Nesse sábado de Aleluia senti um pesar no coração todo o dia. Acho que tem a ver com esse período pós-parto e com todas as mudanças hormonais pelas quais estou passando. Mas pensar que em um dia como o de hoje Jesus estava sepultado dá muita dor no coração. Graças a Deus o domingo está chegando e pela primeira vez, comemoraremos juntos o milagre da ressurreição! Deus é bom!

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Diário de pós parto - quinto dia

* [ fragmentos ] *

Filho, você chegou na semana que eu queria e bem no dia em que eu estava me debatendo de ansiedade de tanto pensar em você. Mas confesso que nunca imaginava que iria te conhecer tão cedo. Seu parto foi bem diferente daquilo que eu planejei e sonhei [relato detalhado mais tarde]. As lágrimas ainda não secaram e o coração ainda está apertado. Mas o que posso te dizer com toda a sinceridade é que seu pai e eu estamos gratos. Você nasceu bem cuidado e muito bem assistido. A equipe que nos assistiu desde a rotura da bolsa até a nossa saída da maternidade fez um trabalho muito melhor e mais humanizado do que as minhas mais altas expectativas. Deus sempre nos ampara e surpreende.

...

Se eu pudesse resumir um pouco do que tem passado em minha mente e coração nesses primeiros cinco dias de pós-parto:

- vontade de fazer o tempo passar mais rápido até estarmos todos adaptados à nova rotina com você em casa e ao mesmo tempo um desejo enorme de parar o seu cronômetro e ter todo o tempo do mundo só pra te observar... cada chorinho, sorrisinho, mamada, carinho... Você me encanta todo o tempo. 

- um medo enorme de não cuidar direitinho de você!

- pânico ao pensar que semana que vem seu pai volta ao trabalho

- gratidão por todo o cuidado que temos recebido durante o pré-natal, parto e pós-parto. Familiares, amigos e profissionais da saúde têm formado uma rede de apoio fenomenal desde o momento em que o teste de gravidez deu positivo. Sua gestação foi marcada por manifestações de cuidado e carinho que tocaram muito em meu coração. E nesses dias que se aproximaram do parto recebemos muitas mensagens de encorajamento e apoio de pessoas queridas :) Foi bem visível e tocante o cuidado de Deus com você e conosco.

...

[continua no próximo intervalo entre mamadas e cochilos]

[nunca imaginei que eu poderia ficar tantas noites sem dormir e não entrar em curto-circuito]

[Deus é bom]