terça-feira, 16 de junho de 2015

3 anos e meio de casados!


Parabéns pra nós, lindo! Amo você!

Relato de parto

Oi, filho,

Seu parto foi bem diferente de tudo o que eu sonhei, planejei ou idealizei desde que engravidei. Mas pensando bem, não tem lógica nenhuma esperar que um evento tão imprevisível e cheio de surpresas como um parto saia exatamente como planejado.

O seu aconteceu de um modo que não deixou dúvidas de que o controle que eu queria/pensava ter, jamais me pertenceu. E isso doeu como um soco no estômago. Ao mesmo tempo, trouxe aquele conforto sobre o qual fala o salmista no Samo 131:

"Senhor, o meu coração não é orgulhoso e os meus olhos não são arrogantes. Não me envolvo com coisas grandiosas nem maravilhosas demais para mim. De fato, acalmei e tranqüilizei a minha alma. Sou como uma criança recém-amamentada por sua mãe; a minha alma é como essa criança." Salmos 131:1-2    (Apesar de anos tendo esse versículo marcado na bíblia e no coração, somente agora entendo a comparação do salmista com a criança recém-amamentada. E isso graças à você, filho!)

...


Era sábado e eu estava extremamente ansiosa. Já tinha completado a trigésima sétima semana de gestação, o que significava que você poderia nascer a qualquer momento. Mas na terça-feira havíamos feito uma ultrassonografia e você ainda não tinha encaixado. E na quarta, durante a consulta do Pré-Natal, o exame de toque não indicou nenhuma dilatação do colo de útero. Você não estava dando nenhuma indicação de queria sair logo de dentro da barriga ;)

Pra completar minha ansiedade a ultrassonografia estimava sua altura em 50 cm e seu peso em 3,4 kg. Se continuasse ganhando peso assim poderia ultrapassar os 4 kg até as 40 semanas de gestação e já seria considerado um bebê macrossômico. Soma-se à isto o fato de o médico ter visualizado duas circulares de cordão em volta do seu pescoço na última ultrassonografia.

Nada disso tirava da minha cabeça que você tinha que nascer de parto normal. Eu passei meses me informando e sabia que nem o peso, nem o cordão eram indicações de cesarianas eletivas. Estava um pouco irritada com a preocupação exacerbada dos médicos e cheguei a marcar consulta com outros obstetras que poderiam nos apoiar na busca pelo tão sonhado parto normal.

No entanto, antes que eu tivesse a chance de consultar outros médicos sobre o nosso prognóstico para um parto normal minha bolsa rompeu. Eram 3 horas da tarde de sábado. Seu pai e eu estávamos almoçando na casa dos seus avós maternos e eu estava extremamente irritada. Já cheguei lá com vontade de voltar pra casa e não via a hora de ficar quietinha no mcu canto. Quando finalmente decidimos vir embora senti um líquido saindo como se fosse xixi. Não tive dúvidas de que tinha chegado a hora de você nascer, e ao mesmo tempo custei a acreditar que estava tão perto o momento de finalmente nos conhecermos.

Voltamos pra casa e enquanto eu fui para o chuveiro seu pai ligou para a médica. Ela falou pra esperarmos duas horas antes de ir para a maternidade para diminuir os riscos de intervenções cirúrgicas (leia-se: cesariana). Neste período de espera fiquei deitada ouvindo músicas do Stênio Március e orando.

Chegamos na maternidade às seis da tarde. A obstetra que estava de plantão fez um exame de toque e confirmou a rotura da bolsa. Mas para o meu desassossego você ainda não tinha encaixado e meu colo do útero não tinha dilatado nada. Uma hora depois do exame fomos internados e nossa obstetra chegou.

Ela nos explicou que a rotua da bolsa não era indicação absoluta de cesárea, mas que era necessário te monitorar para evitar o risco de você entrar em sofrimento fetal. Enquanto isso injetaram ocitocina para induzir o trabalho de parto. Três horas depois você continuava flutuando na barriga e eu não tinha nada de dilatação.

Já eram 10 horas da noite. Nossa obstetra me explicou que à medida em que a noite avançava a equipe ficaria muito cansada e a maternidade não tinha anestesista de plantão. E embora as circulares de cordão também não fossem indicações de cesárea, poderiam atrapalhar sua descida e encaixe para o parto. Sendo assim, no caso de uma cesariana de urgência se fazer mesmo necessária, a cirurgia iria ser realizada no meio da madrugada por uma equipe extremamente cansada.

Os riscos associados à situação nos levaram a optar pela cesariana. Não foi uma decisão fácil e acarretou uma frustração enorme tanto para mim quanto para o seu pai. Mas no momento nos pareceu o mais sensato a fazer porque mais importante do que o parto dos nossos sonhos era você nascer bem. Muitos poderão dizer que um parto normal teria sido possível e viável. Ou que poderíamos ter esperado um pouco mais. Talvez. Mas se algo desse errado a contrapartida teria sido alta demais. Não estávamos dispostos a arriscar.

Entrei no centro cirúrgico me sentindo vencida. Ao me deitar naquela maca totalmente passiva e dependente de outras pessoas me senti a pessoa mais frágil do mundo. De repente, aquela mulher forte, decidida, que mentalizou o trabalho de parto durante toda a gestação, fez exercícios físicos de maneira regular pela primeira vez na vida e sonhou várias vezes com um parto normal, sem intervenções cirúrgicas e com o mínimo possível de medicalização, estava ali naquele centro cirúrgico engrossando as estatísticas de partos cesáreos realizados no Brasil.

Felizmente a equipe médica nos tratou com muito respeito e posso dizer com toda certeza que tivemos uma cesariana humanizada. O parto não foi como eu esperava, mas o momento em que você nasceu varreu para longe todas as frustrações do mundo e aquele primeiro chorinho que você deu ficou eternizado na memória.

Seu pai estava pálido e abatido após acompanhar a cirurgia que queríamos tanto evitar, mas quando colocaram você no colo dele foi uma alegria só! E naquele nosso primeiro momento em família todo o resto deixou de importar. Não me incomodei com a frieza do centro cirúrgico ou com o barulho dos aparelhos que me monitoravam. Tudo o que ouvia/sentia era o seu choro, sua respiração, sua presença palpável, concreta, finalmente ao alcance das nossas mãos!

Até hoje ao me lembrar daquele momento sinto uma onda imensa de felicidade me atingir. Dizem que o momento da saída do bebê no parto normal traz consigo uma quantidade tão grande de ocitocina que deixa a mulher "flutuando de alegria". Eu ainda sonho em viver isso, filho. Mas NADA diminui  a alegria do nosso primeiro encontro. Pelo contrário, só me faz enxergar o quanto sua vida é preciosa por nos mostrar que mesmo quando nada sai como planejado ainda podemos nos surpreender positivamente.

Passei mais da metade da gestação temendo uma cesariana e dizendo que se eu tivesse de passar por uma, teria de fazer terapia para superar a decepção. Hoje enxergo a cirurgia com um pouco mais de serenidade e até gratidão (afinal, não sabemos o que teria acontecido se tivéssemos esperado. Pode ser que você tivesse encaixado e descido numa boa via parto normal, mas caso contrário eu jamais me perdoaria).

Continuo sonhando com um parto normal no futuro. Agora com mais humildade e disposição para acolher aquilo que tiver de ser. Tendo em mente que o Autor da Vida é soberano sobre tudo isso e se Ele nos confiou você, o melhor presente de todos, não há nada no mundo que possa nos fazer duvidar do quanto o amor e o cuidado Dele são reais!

Te amamos muito.