quarta-feira, 7 de setembro de 2016

1 ano e 5 meses

Filho,

O semestre começou por aqui na correria que todo início de semestre em casa de professor sempre traz. Seu pai com uma rotina diferente e eu tentando me adaptar à rotina dele e às minhas novas demandas de trabalho. No meio deste turbilhão você segue seu próprio ritmo, sempre nos surpreendendo com sua alegria e carinho. Algumas vezes nos enlouquecendo com seu excesso de energia. E de vez em quando nos irritando com umas birras eventuais  (nesses momentos eu me descubro como uma mãe de pavio curtíssimo). Mas se tem algo que me comove na primeira infância é essa capacidade de entrega e de perdão que aparentemente perdemos à medida em que crescemos.

Hoje eu nem consigo me lembrar em que momento você começou a balbuciar as primeiras palavras. Lembro-me da emoção que foi ouvir "mamãe" pronunciado da forma correta e da surpresa quando, pela primeira vez, você repetiu uma palavra que dissemos. A partir destes primeiros passos seu vocabulário cresceu muito. Hoje, ele já está mais ou menos assim:

mamãe
papai
vovóooo
vovô
izzza (bisa)
bola
goooool
não
sim
dá (tanto para "me dá", quanto para "toma aqui")
nenê
táto (moto ou pato, depende do contexto)
bubu (carro)
aba (água)
xuco (suco)
papá
cíiia (Letícia)
ciáaaa (Inácia)
au au (cachorros, gatos e vários outros bichos)
eixxxe (peixe)
chua (chuva)
pssi-pssi (passarinho)
mamá (quero mamar)
xixi (para indicar xixi e cocô)
ixo (lixo)
apfri (abre)
adô (ventilador)
sai
céu
sol
pão
mamão
mão
chão
abão (sabão)
dentii (dente)
quente
zezé - josé
juju- jesus
uz - luz
esse

palavra repetida várias vezes ao dia, cujo significado eu ainda não consegui descobrir:
tati

palavras pronunciadas uma única vez até hoje (com perfeição)
azul
verde
mais

frase repetida várias vezes enquanto estávamos no hospital:
vambora :(

Você deu seus primeiros passos com 1 ano e 1 mês. Eu já não me aguentava mais de ansiedade e até te assustei com a festa que fiz quando você se equilibrou sozinho e deu dois passos no tapete da sala. No dia seguinte deu 3 passos. No outro dia andou 5 passos. E depois disso começou a andar pela casa toda. Agora ensaia umas corridas, tenta dar cambalhotas, sobe em tudo, joga bola e grita Goooool (inclusive na parte rasa e mega-escorregadia da piscina).

Suas comidinhas favoritas:
ovo cozido - você gosta tanto que até vira a vasilha na boca quando termina de comer pra tentar pegar todas as migalhas restantes
melão
mamão
maçã
carnes de todos os tipos
arroz e feijão
moranga
chocolate - até aquele 70% cacau, supere amargo você come
leite materno ;)
dedeira e iogurtes diversos
queijo - você ama! come enquanto estiver na mesa ;)

Suas atividades favoritas são: nadar,  tomar banho, passear, visitar avós e bisavós, jogar seus brinquedos e objetos aleatórios dentro do balde de água enquanto Inácia limpa a casa, jogar bola com o papai, jogar pão para os peixes e patos no bosque, interagir com cachorros, seguir a Letícia e imitar tudo o que ela faz, mamar no peito, assistir Pocoiô, assistir documentários de bichos e imitar o som do leão, ler, brincar de carrinhos, abrir e fechar as portas da casa e esconder seus brinquedos dentro dos cestos de lixo e dos cestos de roupa suja, pular em cima do seu pai de manhã bem cedo e falar "bola" ;)

Você é um livro aberto, filho. Qualquer um sabe dizer se está feliz, irritado, animado ou magoado. E o mais encantador é que não importa quão magoado você esteja conosco por qualquer razão, no minuto seguinte já é capaz da abrir aquele sorriso. Como pais de primeira viagem e como seres humanos falhos que somos, erramos muito e erramos todos os dias. Mas você não fica contabilizando nossos erros, e se não fosse a nossa mania de autopunição, a vida como seus pais poderia ser bem mais leve.

Em junho vivemos dias de verdadeiro terror quando você foi internado com pneumonia e teve de permanecer 17 dias no hospital. Essa foi, de longe, a maior tribulação que eu já vivi. Não tenho palavras para descrever a apreensão, angústia, cansaço físico, mental e emocional que esses dias de internação significaram para mim, seu pai, seus avós, bisos, tios, tios-avós e amigos.

No momento em que o peso esmagador da culpa ameaçava me fazer sucumbir ao desespero e à auto-flagelação eu tive que tomar uma decisão: tomar pra mim a responsabilidade pela enfermidade, acreditando - mesmo sem nenhuma evidência disso - que eu poderia ter evitado que você adoecesse se tivesse sido mais cuidadosa OU entregar todo o fardo nos ombros de Jesus confiando que Ele havia cuidado de você todo o tempo e continuaria cuidando (mesmo que isso não implicasse necessariamente na cura). Eu optei pela segunda opção, mas esta é uma decisão que ainda preciso tomar todos os dias ao me levantar e ao me deitar.

Tenho sido desafiada diariamente a não ficar pescando pecados confessados já que meu débito com você nunca é quitado, só aumenta. Agora, mais que nunca, é preciso abrir mão desse cristianismo meia-boca que prega a Graça, mas que busca a autojustificação e pedir a Deus misericórdia pelos erros passados e entregar o futuro à Divina Providência, acreditando, do fundo do coração, que Deus vai cumprir os propósitos Dele na sua vida apesar de mim e do quão incoerente, confusa e imatura eu venha a ser.

Trocando em miúdos: a maternidade me convida diariamente a depositar todo o fardo aos pés do Redentor, confiando que as misericórdias Dele se renovam todas as manhãs. E se tem algo que tenho aprendido todos os dias é que é preciso trabalhar com afinco e diligência, mas não deixar o peso do perfeccionismo nos esmagar. Do contrário, a gente fica atrofiado para aquilo de mais importante que há na vida: nossos relacionamentos.

Espero não ser muito dura com você e nunca dar a impressão de que você precisa de um desempenho mínimo para merecer o meu amor. Eu te amo incondicionalmente, nunca duvide disso. E que a sua identidade se baseie no fato de que você é amado e não nos seus êxitos e realizações.

Temos um Salvador que enxerga no recôndito no nosso ser, filho. Com Ele, não adianta usar máscaras porque Ele conhece todas as nossas feiuras e mazelas. Mas por incrível que pareça, Ele nos ama como somos. Que esse Amor te liberte, filho! E que Nele você aprenda a caminhar pelas encruzilhadas da vida.

Um beijo,

Sua mãe.