segunda-feira, 3 de abril de 2017

2 anos!


Sábado, 28 de março de 2015. Eu estava grávida de 37 semanas e 3 dias. A ansiedade para dar à luz tinha atingido o ápice, já que, além dos desconfortos físicos inerentes ao final da gestação eu mal podia esperar o momento em que lhe pegaria no colo pela primeira vez!  Mas como a data provável de parto estava ainda há três semanas de distância, seu pai e eu saímos para almoçar na casa dos seus avós maternos sem a menor suspeita de que aquela seria a penúltima vez em que sairíamos de casa sem um bebê nos braços.

Tão logo almoçamos e eu, que sentia uma irritação extrema por estar fora de casa e muita ansiedade em relação à forma do parto, chamei seu pai para voltarmos para casa. Mas ao me levantar da mesa do almoço e me sentar em uma das poltronas da sua avó – que mais tarde serviria de poltrona de amamentação em várias ocasiões – eu tive uma sensação completamente inusitada abaixo do útero e precisei ir ao banheiro checar do que se tratava. Naquele instante constatamos que a bolsa tinha estourado.

Seu pai e eu voltamos para casa meio atordoados com a possibilidade de conhecermos você ainda naquele dia. Embora a espera já aparentasse ser longa demais, não estávamos preparados para o que viria a seguir. E naqueles instantes em que nos demos conta de que a gravidez tinha finalmente chegado ao fim, entramos em um mundo paralelo de excitação, apreensão, ansiedade e expectativa.

3 dias depois saíamos da maternidade com um pacotinho no colo. E eu, que havia sido abandonada por qualquer vestígio de vontade própria, segurança e autocontrole a partir do momento em que me deitei na maca para me submeter a uma cesariana não desejada e muito receada, não sabia de onde tiraria aptidões físicas, mentais ou emocionais para operar a tarefa que de mim era esperada: cuidar de você.

Embora tenha batido o pé durante toda a gestação de que não nos mudaríamos para a casa dos seus avós nos primeiros dias de pós parto, naquele primeiro instante em que você estava inteiramente sob a nossa responsabilidade, eu não conseguia conceber a ideia de trazer você para a nossa casa. Minhas defesas caíram por terra filho, e eu me sentia tão frágil e vulnerável como aquele bebê que precisava de mim.

Os primeiros dias de pós-parto foram muito doídos. A dor cirúrgica era intensa, o desconforto que sentia ao me olhar no espelho e ver aquele corpo flácido e tão maior do que o habitual – embora não abrigasse mais nenhum bebê dentro de si –, o leite que não parava de jorrar e deixava todas as roupas molhadas, o sangramento intenso que se segue ao parto... Esses desconfortos físicos somados ao cansaço decorrente das noites em claro faziam com que eu me sentisse ainda mais debilitada e assustada.  Eu sentia medo de tudo o tempo todo: medo de te machucar, medo de te mimar, medo da sucumbir à exaustão, medo de nunca mais sentir alegria...

Vivemos muitos momentos gostosos nos seus primeiros dias de vida, mas todos eles foram marcados pelo cansaço e pela ansiedade. Te dava colo e peito sempre que você requisitava, o que me deixava literalmente exausta e sem tempo até para lavar a cabeça. Todos os planos de criar rotinas em seus primeiros meses foram por água abaixo me deixando com a sensação de que você nos dominara completamente e de que talvez não estivéssemos prontos para sermos pais.

O aprendizado que se seguiu a partir destes desafios foi enorme, e hoje eu enxergo a maternidade com um pouco mais de leveza do que  enxergava dois anos atrás. Nossa família está longe da perfeição. Como casal, seu pai e eu temos muito o que aprender. Como pais, nem se fala.

Mas hoje enxergo a vida de forma menos romantizada. Agora sei que é preciso esperar que as coisas sejam difíceis, e receber tudo o que se dá de forma tranquila como refrigério de Deus. As agruras da maternidade são muitas e aprender a ser mãe é extremamente doloroso. As renúncias são enormes, o cansaço físico, que é grande ao fim de cada dia, não se compara ao cansaço emocional decorrente desta responsabilidade. As crises relativas aos papéis que desempenho como mãe, esposa, profissional, dona de casa e mulher, são constantes e vira e mexe bate aquele desespero e medo de não conseguir dar conta de tudo o que me propus a fazer.

A parte boa disso é abaixar as expectativas, enxergar as pessoas com mais realismo, inclusive a mim. E a partir daí fica mais fácil se abrir para a Graça de Deus e dar lugar à gratidão.

E nesta carta que lhe escrevo para registrar seu aniversário de 2 anos, eu expresso minha gratidão à Deus pela sua vida e pelas maravilhas que Ele opera nas nossas vidas através da sua existência. E, apesar de saber que eu tive um papel bem limitado no seu desenvolvimento físico e intelectual, me encho de orgulho a cada vez que você pronuncia uma palavra nova, leva a colher à boca sem ajuda ou segura sozinho seu copo d’água.

2 anos é um tempo relativamente curto para nós, adultos. Mal dá para concluir um mestrado, se preparar bem para um concurso, chegar à metade de um curso de graduação... Mas pra você, filho, representa toda a extensão da sua vida.

E como foram grandes as suas conquistas nestes dois anos! De um bebê inerte, que mal segurava a própria cabeça, você se transformou neste menino dinâmico que corre, pula, sobe em tudo o que consegue alcançar, conta até 5, reconhece algumas cores, cantarola sozinho trechos de canções e até elabora e articula verbalmente sentimentos como: medo, angústia, felicidade e empolgação. Nem vou tentar reproduzir aqui seu vocabulário porque ele está “enoooorme”.

Destaco apenas algumas das suas palavras e frases mais faladas: “bigadu”, “enoooorme”, “tenho medo” , “ajuda, mamãe/ ajuda, papai”, a inusitada “ajuda, igreja”,  "brinca, papai", "tchau, mamãe, té manhã", "brilha, Jesus", “tá quente”, “tá gelado”, “tá pertado”, “vem, mamãe”, “veeem vovó”, “papai tá trabalhando”, “qué sisti urso polar”, “qué não”, “que legal, divertido!”, "segura, peão" e a clássica: “dá licença, mamãe” (quando quer privacidade para fazer cocô, quando tenta fazer alguma coisa proibida ou brincar sozinho com seu pai e eu tento entrar no meio).  Sua avó costuma dizer: "Vovó te ama, promete que não esquece?". Ao que você responde: "trumpete".

Mas a frase campeã do momento é: “Que isso?”.

Tudo desperta a sua curiosidade e quando lhe respondemos uma palavra fácil de repetir, você repete com muita satisfação. Sexta seu pai te levou à feira como ele faz todas as semanas. Mas desta vez você passou todo o tempo perguntando “o que é isso?” ao se deparar com pessoas, barracas, legumes, frutas, árvores e lugares. E a cada vez que ele lhe respondia: maçã, laranja, estacionamento, barraca, etc, você repetia com grande entusiasmo.

Você é apaixonado por bichos e conhece vários deles pelo nome: cachorro, gato, girafa, elefante, lobo, urso polar, hipopótamo, gatinho, leão, tigre, dinossauro,  porquinho, peixe, tubarão, tucano, arara, gavião, sapinho, patinho, golfinho (mais conhecido como tufinho) e cavalos, que são os seus favoritos!

A nova moda é se referir à você na terceira pessoa. Às vezes você fala: “o Pedrinho fez isso” ou “isso é do Pedrinho.” E desde que sua bisavó falou que você ainda é bebê você começou a se referir à você mesmo como “o bebê”. Se começa a tossir diz: “O bebê ta tossindo”. Se faz uma bagunça na sala e alguém lhe pergunta quem fez isso você responde: “o bebê”.

Você tem uma personalidade forte e eu diria que até um pouco obstinada. Os acessos de raiva e birras já se tornaram constantes no nosso dia à dia. Muitas vezes é preciso falar bem duro com você, mas em outras, basta um abraço carinhoso pra que você se acalme e recobre o bom humor que é sua marca registrada J

Seu sorriso gostoso nos acompanha desde às seis da manhã, quando você levanta da sua cama e vai até a nossa acordar o seu pai para brincar. E na hora em que te colocamos pra dormir, é com sorrisos e chamegos gostosos que você finalmente adormece.

Você presenteia seus amados com muitos abraços, sorrisos e beijos. E a forma que tem encontrado para demonstrar predileção por alguém nestes dias é chamando a pessoa para se sentar ao seu lado no chão e brincar, ao mesmo tempo em que pede pra que eu te deixe a sós com a pessoa dizendo: “dá licença, mamãe!”. O medo de outras crianças ainda não cedeu completamente, mas quando você se encanta por alguma, é difícil se despedir.  

Seus avós – maternos e paternos – ocupam um espaço “enoooorme” no seu coração. E seus bisavós também são motivo de muita alegria na sua vida. Comemoramos seu aniversário no sábado na casa da bisa e foi muito gratificante perceber o quanto este foi um dia alegre pra você. O empenho que seus bisavós e tio-avô Roberto tiveram para deixar a casa decorada para sua festinha foi comovente. Eles abriram seus corações e vidas completamente pra você, filho. E graças a Deus você vem retribuindo tamanho afeto com muito amor e carinho.

Minha oração de hoje é pra que você sempre coloque as pessoas em primeiro lugar. Que seu coração seja quebrantado e que desde pequeno você seja cheio do Espírito Santo. Que você se veja como meio, e não fim na vida das pessoas. E que, por meio da sua vida, muitas outras sejam abençoadas e edificadas. Que você seja generoso, amoroso, solidário e carinhoso. Que não tenha medo de demonstrar afeto e que também não tenha medo de demonstrar tristeza. Que o amor seja a base da sua identidade pra que você nunca sinta que tem que fazer ou conquistar algo para ser amado. Que você seja livre para se desenvolver plenamente, mas que conheça desde cedo o caminho do bem e se abstenha do caminho do mal. E que você caminhe com fé, amor e esperança pela jornada desta vida que acabou de começar, mas que já trouxe tanta alegria para nós que temos o privilégio de caminhar ao seu lado.